Vida de Tripulante

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Mudança de endereço

Agora meu blog está em outro endereço.

Saí do tema só de aviação dessa página. Passo agora a falar de absolutamente tudo que sei, ou que acho que sei.

http://oroquefala.blogspot.com

Sobre Gramado

Gramado

Para tentar dar alguma vida a esse blog moribundo que eu praticamente esqueci, vou começar a falar das minhas viagens recentes. A primeira delas é bem simpática e humilde, embora cheia de críticas, como sempre. Gramado e Canela.

Primeira coisa a ser mencionada é que esse tipo de viagem é destinada a casais (sem filhos, preferencialmente). E te digo que, com o pouco que eu vi, não se faz necessário mais que 3 noites nesta cidade para conhecer a plenitude de ambas, com suas características culturais, gastronômicas e naturais. Fora isso, já tá bom.

Hotéis: A cidade de gramado não tem hotéis de bandeira internacional. Esqueça Holiday Inn e afins. Os hotéis são regionais e gerenciados pelos locais. A cidade praticamente vive do turismo, tanto que em boa parte das atrações que você escolher visitar, fatalmente você vai morrer em alguma “entrada”. Não obstante a maioria dos hotéis oferecem cafés da manhã fascinantes e um conforto muito bom em seus quartos, transformando a experiência de um fim de semana em Gramado bastante agradável. Recomendo, todavia, cautela para a escolha de seu hotel, vez que alguns adotam restrições para fumantes e animais, por exemplo, enquanto outros não tem restrições para um, outro ou ambos.

Gastronomia: Come-se muito bem na cidade. Mas não é tão barato assim. Se formos comparar, em abril de 2012 (tempo em que escrevo esse post) é bem verdade que não está tão caro se compararmos a média de preços de comida na região sudeste. Mas em termos de cidades-turismo, não dá pra desconsiderar que determinadas coisas poderiam ser bem “menos caras”. Se você for optar por comer massa em lugar de carne, você vai perder dinheiro. Existem várias galeterias e churrascarias (parrilhas) disponíveis bem como restaurantes super requintados que realmente vão fazer valer o seu dinheiro em lugar de pizzarias, ou cantinas italianas, onde a massa é conhecida e os molhos nem são lá essas coisas.

Cultura: De fato, Gramado é uma parte da europa que criou raízes no Brasil, no quesito cidadania e educação. Se você meter o pé na faixa de pedestres, os carros param. Se você ignorou o pedestre, prepare-se para ser xingado ostensivamente. Se ficar repetindo isto indefinidamente, acho que a cidade inteira vai acabar te linchando. De resto você não vê burburinhos graves nem sequer na rua mais movimentada da cidade (Borges de Medeiros).

Chocolates: Taí um ponto a qual cometerei uma grande heresia, e espero que os locais não se sintam ofendidos. Sei também que gosto não se discute, mas quem estiver com disposição de tirar uma prova prática (considerando que você vai visitar ambas as cidades dentro em breve), experimente uma mesma barra de chocolate ao leite, simples, de todas as fabricantes. Você vai perceber que a diferença de sabor praticamente inexiste. Agora obviamente é diferente você ir em uma das boutiques de cada uma das lojas e provar seus chocolates premium, ou então seus chocolates-quentes e afins, que são servidos ostensivamente e generosamente em grandes xícaras com deliciosos acompanhamentos.

Natureza: Poucos pontos definem a natureza de Gramado ou Canela. A primeira delas é o Lago Negro, que não é tão negro assim e não é tão grande. Mas vale um passeio ao seu redor. Todavia você vai perceber que o Lago Negro nada mais é do que um antro de pedalinhos, pois os cisnes praticamente tomam conta do visual do respectivo lago. Em relação ao Parque do Caracol, é um passeio válido desde que seja feito em um dia bonito e não tão frio, e a descida para conhecer a cachoeira é legal, mas se você já foi conhecer as cataratas de Foz do Iguaçú, não estará perdendo muita coisa.

Comércio: Para as mulheres, as lojas de sapatos, botas e afins acabam sendo uma aventura, embora eu recomende cuidado, vez que os materiais as quais tais produtos são feitos nem sempre são de produtos legítimos. Tem couro vegetal e couro verdadeiro então cautela para a mulherada querendo botar o pé na jaca em compras. Roupas idem, embora em termos de roupas de frio não há muitos produtos 100% Lã.

Entrenimento: Normalmente a Borges de Medeiros acumula a maioria dos eventos que giram em torno de gastronomia. Costumam ser mais freqüentados de noite. Em outros casos, a rua José Petry acompanha a única boate da cidade, onde todos se reúnem para dançar. Entretenimento diurno fica por conta do castelinho de chocolate (Fábrica modelo da Caracaol), e a MUM (Museu da Moda), que é bem interessante para as mulheres que gostam do assunto.

Menções Honrosas: 

Casa Franzen: Esta casa é uma que fica na volta do Parque Caracol para Gramado, merece sua visita. Não estou fazendo propaganda para eles, obviamente, mas compartilho minha experiência vez que a casa tem uma história rica não só nos detalhes da casa mas em suas características vivas. Tem uma cafeteria presente no local que tem um menu meio restrito, mas não menos delicioso: O Apfstrudel de maçã com passas com Creme é uma divindade em si só. Apesar das pessoas acharem uma penca de gordura e optarem pelo sorvete, recomendo não comer a iguaria com sorvete. Comam com o creme. E é suficiente para dividir por dois. Outra iguaria deliciosa da casa é o chá de maçã, que é natural, onde a neta dos antigos proprietários da casa convidam a todos a conhecer a cozinha com seu fogão original alemão dos anos 50. Essa casa parou no tempo e é impressionante como ela mantém seu funcionamento tradicional. No segundo andar da casa, você se sente como o Marty McFly (ver filme De Volta Para o Futuru 1, 2 e 3), observando perplexamente as características que envolviam a vida de seus bisavós e tataravós.

Rodízio de Fondue do La Gruyére:

Na Rua José Petry existe um restaurante chamado La Gruyére. Se você é uma pessoa que não tem problemas em comer bem durante o período da noite, recomendo fortemente uma visita a este local para comer um Fondue todo especial. É um rodízio super completo, que começa com um Fondue de queijo maravilhoso, após um fondue de carne e por último um fondue de Chocolate ao Leite, que tem como opcional um de Chocolate Branco, com alguns reais a mais. Vale avisar que o fondue de Carne acompanha 3 tipos diferentes de carne (Ave/Porco/Vaca), e ao invés de um richeau cheio de óleo, o que é posto na frente é uma chapa de aço fundido aquecido constantemente, então você praticamente “frita” seu próprio bife ao seu ponto, sem o desprazer de comer meia garrafa de óleo lisa no meio do processo. Junto com o Fondue de carne há várias opções de molhos que dificilmente você vai conseguir comer todos, de tão variados que são. Outros pratos também estão disponíveis e normalmente servem duas pessoas, com exceção dos pratos de peixes, que servem apenas uma pessoa. É bom lembrar que, se você não vai em Roma comer Feijoada, se você não vai na Espanha comer um rodízio de pizza, acho melhor não comer peixe em Gramado, pois tenho certeza que dificilmente você será surpeendido.

Por enquanto é só.

Lago (Taken with picplz at Lago Negro in Gramado.)

Lago (Taken with picplz at Lago Negro in Gramado.)

That’s Us! (Taken with picplz at Dublin Irish Pub in Porto Alegre.)

That’s Us! (Taken with picplz at Dublin Irish Pub in Porto Alegre.)

Scary Shit! (Taken with picplz at Edificio Patrizia in São Paulo.)

Scary Shit! (Taken with picplz at Edificio Patrizia in São Paulo.)

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Um Brinde!!!….. (Taken with picplz at Beira Mar - Padaria e Confeitaria in Niterói.)

Um Brinde!!!….. (Taken with picplz at Beira Mar - Padaria e Confeitaria in Niterói.)

Curtas do 2o semestre de 2011

Como estou em falta com todos os leitores, resolvi fazer as curtas mais impressionantes da semana.

1) Hoje estava na fila do Santos Dumont, fazendo meu check-in. Eis que atrás de mim tinha uma senhora, de 40 e muitos anos Cabelos curtos, tipo de homem. Perfil Cássia Eller (ou Kassia, whatever). De repente o diálogo segue:

- Você é piloto?

- Sim…

- Há quanto tempo?

- Hmmmm sabe que eu não lembro? ‘xo contar <pausa mental> acho que uns 13 anos.

- E me diz uma coisa… Você já viu alguma coisa fora do normal?

———

Pausa para o comentário: Logo percebi que quando ela arregalou o olho para conversar comigo, estava perguntando não sobre anormalidades de aviação, mas sobre Ovnis!!! Pode uma coisa dessas?!?

Voltando ao diálogo

————

- Você quer dizer coisas estranhas? <perguntei, ressabiado>

- Sim!!!

- Ah não… só vi outros aviões, e graças a deus na separação regulamentar de altitude. Nada de anormal! <reticente>

- Ah porque quando eu voei num avião pequeno um comandante velhinho falou que já tinha visto vários OVNI’s…

<Balcão: PRÓXIMO!!!!!!>

- Imagino que sim! Acho que os homens lá de cima me acham feio. Com licença, um bom vôo pra senhora!

[END]

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2) Outro dia estava em curitiba, vindo de são paulo. A aeronave a qual eu cheguei ia voltar pra congonhas, e minha escala estava alocada para o Rio de Janeiro, galeão. Isso foi semana passada.

Eis que de repente fiz a troca de aeronave normalmente. Saímos no horário. Quando o comandante foi fazer o speech para a chegada, informou que a cidade maravilhosa estava com 24 graus e tal e coisa.

Beleza… De repente a comissária chama a gente na cabine. Eis o diálogo:

- Oi comandante. Com licença! Olha só, tem um passageiro aqui que está reclamando que ele queria ir pra Congonhas, e não para o Rio de Janeiro!

- Oi?!?!?!

[END]

Pois é. Como é que um passageiro embarca no avião errado? Isso existe? Sim. Basta 2 aviões serem embarcados ao mesmo tempo para que isso aconteça. Mas o problema é o seguinte: Mais uma vez prova-se que o passageiro não presta atenção no que o despachante fala no terminal de embarque e o que a comissária fala no speech de boas vindas. Esse é o Vôo XXXX para a Cidade do YYYYYYY, em ZZZZZZZZZZ.

Gente… Okay, o cara deu sorte que conseguiu ser reembarcado em Guarulhos. Mas porra. Como pode? Embarcar no vôo errado? Pelo menos pergunta pra Comissária para onde o avião está indo. Ora pois.

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3) Vários brasileiros, graças a popularização do transporte aéreo, tem viajado. E cada vez mais eu vejo esses primeiros navegantes com dúvidas, e todos eles querem fazer apenas uma coisa: Visitar a Cabine de Comando.

Sério. Eu não tenho nada contra. Mas por favor, quando você for pra lá, se comporte. O Copiloto, tadinho, não é um animal de zoológico para você falar “ai que bonitinho!!!” “nossa ele fala!!!” ou coisa do gênero. Sabemos também que o ser humano é muito inteligente (como sempre, mas se fosse inteligente não fazia tanta merda no planeta), mas o principal de tudo é que você não pode perguntar pro piloto se ele sabe usar todos os botõezinhos do painel. É CLARO QUE SABEMOS!. Senão não estaríamos ali. Acredite.

Juro por deus que eu não tenho nada contra visitar a cabine. Mas tem muita gente que chega ali atacada achando que tá numa feira promocional de esfihas de habib’s. Peguem leve faz favor!

Acho que na próxima eu vou fazer uma faixa “Copiloto Brabo!”

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O Tesslergate.

Eduardo Tessler foi o jornalista mais comentado no facebook e em todas as rodas de aviação desde as salas vips do AMEX e do Diners de Guarulhos e Congonhas, bem como nos DO’s de todas as empresas aéreas Brasileiras. O autor daquele enfadonho texto “caroneiro dos ares" e o "jeitinho 1, educação 0" criou um flamming imenso em todos os cantos do mundo, e uma indignação por parte de todos os aeronautas, no que diz respeito a atitude e as idéias pré-concebidas dos tripulantes que viajam “de carona” (termo técnico: extra particular/extra remunerado). Pois bem.

O que eu acho disso tudo? Bom, vou tirar esse post para ser meio advogado do diabo. Eu me considero um alvo dos textos dele também, apesar de ter a alma lavada (ainda que tardiamente) pela resposta do SNA, contudo não impede que venhamos a analisar a postura isolada do profissional em foco neste texto.

1) Primeiro é aonde ele se encontra. Jornalistazinho básico, que publica seus textos num provedor de conteúdo copiado, como o Terra networks. De fato, o Terra deve ter uma abrangência de clientes grande, e é fato que jornalistas novos começam seus empregos nesses portais e vão cavando oportunidades melhores até parar (ou não) nas mídias principais impressas (ou grandes mídias online). Não imagino que o Terra seja um bom nicho para jornalistas experientes, até porque ela não pode criar muita coisa vez que a infraestrutura dela é baseada nas agências de notícias já consolidadas no mercado e delas copiada. Também temos que notar um ponto importantissimo: um jornalista sério como O Globo, O Dia, ou qualquer outra mídia de circulação massiva provavelmente terá uma postura estudada do caso, polida, ainda que mencionasse algo essenciamente polêmico. Jamais iria dizer “caroneiros”, iria dizer talvez “tripulantes de carona” ou algo provavelmente mais próximo da realidade. Se prestarmos atenção nos dois textos dele, ele escreve como se fosse um papo informal no bar, sendo ele a vítima do incômodo, e não algo jornalístico sério. Comporta-se como um jornalista medíocre idealista sem causa, para dizer o mínimo. Convenhamos, para ser jornalista hoje em dia nem precisa mais de diploma: E nisso obtemos duas interpretações: Tem gente que faz curso e não consegue ser nada, e tem gente que nunca precisou de curso e é um excelente atuante na área. Aparentemente, Tessler deve se encaixar na primeira opção.

2) Tessler na realidade nunca fez nenhum dever de casa (pesquisa) para compor essa “reportagem”. Ele parece que já tem um lugar comum, um recalque pré estabelecido. Ele quer porque quer atacar os tripulantes. Eu bem que gostaria de saber quem estaria financiando ele pra fazer isso. Para ele não importa que a Infraero seja um poço sem fundo de corrupção, ou que a ANAC seja um cabide de despreparados, gerenciada até pouco tempo pela foda mais gostosa do Ministro da Defesa. Todo o Caos da aviação e a desgraça de todos os passageiros para fechar a porta da aeronave é do “piloto gordinho risonho”  (seja lá o termo utilizado por ele) que senta do lado dele. Nessa hora, eu gosto de usar aquela frase bem dita durante o aeroclube: “mijar pra baixo é muito fácil”. Quero ver ser macho e mijar pra cima.

3) Nota-se também uma falta de adequação terminológica. O recalque é pessoal, ele só esqueceu de ser mais explícito neste ponto. Também não se deu ao trabalho de perguntar por quê existam tantos tripulantes voando de extra. Nessa hora era interessante fazermos também um Mea Culpa: Desde os fins da aviação brasileira clássica (Varig, Vasp, Transbrasil), 80% das empresas aéreas brasileiras baseiam seus tripulantes exclusivamente no estado de São Paulo. São elas a TAM, a Gol, a Avianca Brasil (ex: OceanAir) e a Azul. A Trip, Webjet e Passaredo se localizam em bases completamente diferentes devido ao foco regional delas (Exceção da Webjet, que quer abrir base por uma questão estratégica diferente). E daí, temos que botar na balança que o incômodo Tessleriano não o fez nem pensar os motivos pela qual nós nos movimentamos constantemente: Umas vezes para ir pra SP para trabalhar, outras vezes porque a empresa programa os tripulantes intencionalmente para ir como passageiros para determinada localidade para fazer outros vôos ou outros fretamentos. Temos culpa? Mesmo?

4) Para ajudar o nosso amigo jornalista, que abusa de sua mediocridade escrevendo sem pensar ou estudar sobre o assunto, interessante seria questionar a centralização da base dos tripulantes em um só local, visto que num país que em tese irá sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas dentro em breve. Além disso, vale perguntar também por quê existe esse caos político constante dentro da infraestrutura estagnada da Infraero onde as empresas tem que crescer pedindo “pelo amor de deus” para os órgãos governamentais responsáveis. Disso ele não fala, porque obviamente lhe falta a coragem ou o discernimento para fazer essas perguntas. Sabe que se for mexer com gente grande no governo vai tomar uma boa dedada (desculpe, sou educado) no seu lindo esfíncter e sua carreira, que já não era lá essas coisas, aí sim não vai sair do chão MESMO.

5) Ao invés de xingá-lo como todos tem feito (de certa forma com razão), eu gostaria de convidá-lo para uma entrevista. Gostaria de talvez, se ele fosse ético o suficiente, convidá-lo a mostrar o que está acontecendo na aviação civil brasileira hoje. E também convidá-lo a prestar atenção no que está acontecendo ao redor dele, visto que aparentemente os óculos dele estão mal ajustados em termos de foco e especificações. Ele não foi pra São Luiz do Maranhão ver o Terminal Aeroportuário com o teto desabado, onde as pessoas tem que esperar num calor satânico o seus vôos num terminal de lona, parecendo uma tenda de música eletrônica no Aterro do Flamengo, em pleno meio dia. Ele não viu também as goteiras dos fingers do Aeroporto de Recife, que se dizem prontos para receber a Copa do Mundo. Ele também não observou os superfaturamentos dos ” Módulos Operacionais Provisórios” (popularmente conhecidos como Puxadinhos) de Vitória, no Espírito Santo, que já estão parados por falta (a.k.a desvios) de Verbas. Ele também não vai saber explicar por quê o Aeroporto de Goiânia está estagnado onde o argumento principal é a falta de espaço. Ele também não vai saber explicar o porquê do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro não estar sujeito a privatização, devido as forças políticas do Sérgio Cabral com as Forças Armadas em relação a quem controla aquele aeroporto, que está mais do que na hora de ser reformado, nos 2 terminais.

Isso sim seria um jornalismo decente, revolucionário, verdadeiro e ético. Mas como o Tessler é um cagão (desculpe, não consigo achar outro termo adequado), ele não vai “mijar pra cima”. Dá trabalho. É mais fácil jogar a culpa nos tripulantes e nos trabalhadores, visto que com político poderoso é beeeeeeeeem mais difícil, sob pena de se tornar um renegado e morrer por isso. O quê? Morrer por tripulantes? Jamais! Então ética, neste caso, não tem lugar. Imediatamente me lembro de umas das frases mais célebres na política brasileira, de Rubens Ricúpero, antigo ministro da fazenda, que dizia “O que é bom a gente Fatura, o que é ruim a gente Esconde”, naquele incidente da TV via Satélite. Duvido que ele se lembre dessa frase, ou de quem foi Rubens Ricúpero. Mas ele com certeza conhece o princípio geral. Ele faturou o ibope e a sua promoção pisando nos aeronautas. E nem ficou por isso mesmo.

Por isso convido nosso colega Jornalista Eduardo Tessler a se apresentar para discutir verdadeiramente os problemas que ele tem enfrentado como passageiros. Tenho certeza que o grupo de vôo todo será unânime em dizer quais são os problemas pontuais e, na realidade, se ele for investigá-los, irá parar numa teia política fortíssima, de seres graúdos e poderosos, que vão dar uma martelada de Thor (sim, Thor porque está na moda e está em cartaz também) na cabeça dele. Se não matarem, porque no Rio de Janeiro, por muito menos você não toma um tiro até mesmo no Posto Mega na Barra da Tijuca.

Logo, aos meus queridos aviadores, durmam tranqüilos.  Nós sabemos os problemas que enfrentamos diariamente. Ninguém nos perguntou nada, e no olho dos passageiros, infelizmente ainda seremos os culpados, graças a esses jornalistas medíocres que mal ou bem, se vendem barato para a mídia, a troco de fama e um pouco de dinheiro. Eu não me desgastaria tanto por pouco.

Vamos fazer um pequeno flashback, porque eu acho que é válido: Lembram em 2007, no apagão áereo e na greve dos controladores? Sabe para onde os passageiros transmitiram sua revolta? Contra as empresas aéreas. Ninguém perdoou os coitados dos pilotos, comissários, despachantes e atendentes de balcão de check-in. Já que, obviamente, em uma demanda judicial, processar a empresa aérea dá retorno certo em face de uma empresa pública ou autarquia, onde seu dinheiro irá mofar em precatórios durante 10 anos. Ninguém vai contra a Infraero, ninguém vai contra a União, porque sabem que vão mexer com gente graúda. Nem as empresas aéreas fazem isso, porque as últimas que tentaram, foram massacradas de forma categórica. Isso aqui, no final das contas, precisa é de um impacto de moral. E estamos muuuuuuuuito longe disso, com esse governo medíocre da Dilma.

É essa minha opinião, senhores. Deixem ele para lá. Ele já conseguiu o ibope dele às nossas custas. Já já ele vai ser jornalista de algum jornal bom. Esperem só e verá. Sabe por quê? Porque no Brasil, o Mundo é dos medíocres, e nós ficamos sentados e observando perplexos, sem fazer absolutamente nada.

Bullying - o tema velho da moda.

Acho muito engraçado essa coisa de Bullying virar moda. Precisou de um moleque com merda na cabeça e matar uns garotos em Realengo para chamar a atenção da péssimamente informada opinião pública brasileira (E carioca, pra começo de conversa) sobre o termo, que na realidade já existe como aspecto claro de forma de poder em sociedade. Bullying é, aliás, o que define as guerras de tráfico que até outros meses atrás arrastavam o Rio na onda de medo e que, na realidade, a milícia fez questão de abafar e dominar, porque afinal de contas, não existe lucro com venda de drogas com tiro indo pra lá e pra cá.


O Bullying nada mais é do que a desestrutura social em formato mirim. A ausência de “autoridade” e educação recoloca um grupo social muito jovem - e nesse caso eu me refiro aos estudantes de primeira a quarta série ou de quinta a oitava (como dizia na minha época), que estão justamente querendo se definir como pessoas numa sociedade e acabam esbarrando nos preconceitos e nos que são “estranhamente diferente” dos demais que são “normais”, dentro de um conceito muito abstrato dependendo da faixa social em que esse pequenino grupo se encontra.


Dentro da minha experiência pessoal (é claro, vou citá-la aqui), sempre sofri bullying. Estudei no famoso Colégio Anglo Americano, na Barra da Tijuca, bairro nobre do Rio de Janeiro nos anos 80. Mas nem por isso minha passagem por lá foi tranqüila. Sei que fui privilegiado em estudar lá, mas não defino como algo digno de lembranças boas, em nenhum nível.

Primeiro porque sempre fui sacaneado porque era uma criança obesa. E obesidade sempre foi, pros olhos dos garotos desta geração, um símbolo de derrota. O fato de não ser magro é um presságio para não ser bonito e pintoso no futuro, e ser um “pega-ninguém”. Outro aspecto em relação ao bullying que não só acontecia comigo mas acontecia com meninas que eram negras.

E num microcosmo social, os preconceitos sofrem efeito cascata, tanto que dentro de minha casa havia uma certa enunciação de preconceitos diversos por exemplo, do meu pai contra negros. Não adianta dizer, as gerações muito mais antigas sempre tiveram preconceitos arraigados contra afro-brasileiros (tanto que existe esse estigma até hoje nos EUA e aqui também, com essa história de quotas, mas deixa isso pra ser discutido outro dia), mas digo que dentro das minhas frustrações, eu também tinha meus momentos de preconceito contra uma menina afro-brasileira que hoje é atriz de novela e é extremamente famosa e estudou comigo nesse mesmo colégio. Obviamente me arrependo disso, mas não vou ser hipócrita em negar o que eu fiz: Se fiz, tive com certeza uma influência em fazê-lo, mas não um motivo legítimo, claro que não.

Me lembro de um episódio de tê-la chamada de “criolinha”, coisa que de fato não é nem um pouco agradável de se lembrar, mas que eu faço questão de fazer o mea culpa, porque hoje podemos muito bem entender o que aconteceu. Dentro da minha turma do Anglo Americano havia uma certa frescura porque a turma tinha mapeamento de assentos, para que os núcleos de conversa não se formassem, coisa que era definida pelo professor randomicamente, por semestre. Curiosamente isso não mudava muita coisa porque sempre colocavam os mais bagunceiros no fundo da sala, já que não queriam que eles ficassem causando problemas em suas aulas na frente. Afinal, professor orgulhoso quer aluno brilhante na frente né, onde ele pode se gabar mais. E nisso os bulliers se faziam lá trás. Eu fui alocado no meio, e como sempre não dava pra ser nem um nem outro. Mas sempre ficava no limbo em ser zoado justamente pelo fato de ser gordo, tímido, e ter a consciência que não adiantava se fazer pelo sistema de punição interna do colégio (“ficha de ocorrência” “ficha de advertência” “ficha de suspensão”), então a cara de pavor era constante. Ser obeso no Anglo Americano era um terror.

Lembra do video do Gordinho Zangief? Pois é. Eu fui participante de uma cena igualzinha a essa no Anglo Americano, onde dois garotos, mais baixos, ficavam me zoando de “gordo/baleia/saco de areia” constantemente, na hora do “recreio” (hora do intervalo). Eis que uma hora você fica extremamente pilhado e frustrado e com a ignorância alheia e eu resolvi tomar uma atitude, mesmo sabendo que ia me foder. Peguei 1 pelo pescoço e dei um mata leão, até o moleque desmaiar. O outro eu dei um murro no peito, dei uma banda e joguei contra uma grade de saída de metal enferrujado, cuja porrada rendeu uma boa mancha rosa, mas não chegou a sangrar. Queria que tivesse sangrado. Na realidade eu queria que tivesse aberto uma ferida inesquecível nele. Porque a raiva era tanta, que consigo me lembrar dessa cena claramente até hoje. Tanto que o vídeo do Gordinho Zangief para mim não foi engraçado. Foi uma rememoração dessas lembranças.

E agora passamos a analisar o que exatamente traz esses episódios. Como eu falei acima, os colégios hoje em dia são microcosmos sociais do que temos hoje em nosso País. A ausência de autoridade define exatamente esse microcosmo onde alguns acham que podem tudo, e outros que tentam levar suas vidas normalmente acabam sendo achincalhadas por aqueles que acham que podem. Num colégio como o Anglo Americano, na Barra da Tijuca, onde vários garotos se achavam intocáveis pelo fato de terem pais famosos ou pais poderosos, o nível de stress em relação a esse tipo de evento era uma constante. E todos, todos sem exceção, se consideravam intocáveis ou isentos de punição, pois como diz aquela frase no filme “Scent of a Woman”, "and there’s George, hiding in big Daddy’s pocket".


Vendo o que aconteceu comigo, devemos nos perguntar que fim levou depois que eu agredi os dois moleques. Bom, primeiramente que eu virei um monstro pras mamães dos rebentos, e acabei virando uma pessoa mais isolada ainda dentro da sala. Pela questão de obesidade somado agora com a antipatia que havia conquistado por ter esmurrado e enforcado um garoto de uma série menor que a minha (fui taxado de covarde, é mesmo, esqueci dessa), provoquei os valentões da sala dizendo "vem mexer com a gente então, gordo covarde babaca!" e sim, apanhei muito depois. E, claro, logo depois do evento veio um inspetor me levar pra diretora da primeira série pra me passar uma ficha de ocorrência e me colocar como vilão, enquanto que os 2 príncipes se saíram como vitimas, e muito bem, ganhando o Oscar do colégio inteiro. Babacas.

E eu acho que é aí que começa a minha crítica em relação ao tema: Bullying sempre existiu. O problema é o sistema educacional que está, de fato, falido. E também já se observa desde esta época uma falência da instituição familiar pois os preconceitos eram arraigados dentro de casa, e as crianças, de fato, retransmitem isso sem perceber. Racismo foi algo que eu retransmiti. As outras crianças da sala retransmitiam os pré-conceitos adquiridos de suas casas para a sala de aula ou até mesmo, por diversos motivos, eram tão escurraçados em casa que faziam valer sua raiva na escola, onde eles podiam ser quem eles quisessem. Não havia acompanhamento psicológico pra nenhuma criança com esse tipo de problema e a escola particular, neste caso, estava cagando para o bem estar daqueles que sofriam esse tipo de violência.

O Bullying nada mais é do que a conseqüência direta da falta de educação de berço, a ausência familiar conceitual e, acima de tudo, ausência de autoridade dentro do ambiente escolar, que acaba tornando esse tipo de violência instuticionalizado.

É por essas e outras que quando eu passo na frente do Anglo Americano na Barra, quando passo ali, não sinto nada a não ser raiva, rancor, ódio. Por mim eu teria implodido aquele prédio quando eu saí de lá. É um discurso dramático, mas não sinto falta daquele lugar. Não deixaria um filho meu ali dentro em hipótese alguma. Ainda mais sabendo que a mesma diretora se encontra lá, e a filha da puta não morreu até hoje e provavelmente o metodo de ensino jamais mudou.

Aliás, dentro desse contexto, outro ponto histórico interessante eu quero mencionar, porque é extremamente interessante.

Como vocês sabem, as redes sociais (orkut/facebook/etc) são responsáveis por diversos reencontros de turma de colégio de vários grupos que invariavelmente acabam se achando… pois bem. Recentemente uma menina publicou uma foto da época de turma onde eu já não era tão gordo assim (mas ainda assim eu era o saco-de-pancada da turma), e foi um pouco antes de pular para o segundo grau. Um dos seres que ali habitavam era um garoto relativamente alto, cabelos longos (quando, para meninos, cabelos longos era considerado um escândalo nos anos 80), filho de um baterista de uma banda de rock brasileira. Pois bem. Ele sempre teve um jeito metido, prepotente, e tratava todos os outros que nem empregados, e como era filho de alguém famoso na época, acabava sendo o centro dos puxa-sacos de plantão da “ganguezinha” dele.

Acabou que todo mundo resolveu comentar na foto, e todo mundo se “reencontrou” ali. E uma surpresa inusitada foi a aparição desse ser prepotente e escroto como, agora, um Presbítero de uma igreja, falando que tudo era em nome de deus. Ironticamente, o gordo mais mal tratado do mundo daquela época acabou sendo o centro das atenções desse agora rapaz, que começou a querer me encantar com os discursos religiosos dele.

Desconfiado e direto como eu sou, mandei uma mensagem pelo facebook pra ele, perguntando de fato, o que fez ele mudar tanto, de um garoto prepotente e arrogante na época do anglo para alguém tão dócil e devoto a felicidade alheia como ele estava sendo comigo. Aí fui pontual em ilustrar com detalhes os momentos em que ele foi prepotente na turma, como ele se trajava, como ele se comportava. Ironicamente ele não teve coragem de responder a mensagem, mas ainda assim continuava me dando constante atenção. Filosofando sobre o tema, e ignorando suas solicitações em conversar com ele pelo chat do facebook (eu até adicionei ele por um tempo mas depois bloqueei, e agora vou explicar o por quê), cheguei a conclusão que não precisava reviver o passado mesmo que de forma diferente. Já foi decepcionante conhecer essa pessoa no passado, com o que ele trouxe a época, e não vai ser agora que ele vai se redimir dos “pecados” cometidos. Sorry fella (da puta), um abraço e até breve.

Provavelmente o comportamento dele à época deve-se a questão familiar e social dele, e pode até ser que isso permita uma isenção de culpa do comportamento dele para comigo. Mas não dá, não é possível perdoar mais esse tipo de coisa. Determinados perdões você pode dar, mas esquecer do acontecimento realmente é muito difícil. Sou muito rancoroso e não pretendo deixar passar todo o sofrimento que tive no colégio em branco, em Prol de Deus. Sei que o que eu fiz, na época, contra a menina afro-brasileira (hoje é a Tais Araujo!) não é perdoável em nenhum nível, e tenho que viver com isso sem o perdão dela. Não tenho desculpa para o que fiz, mas tenho uma explicação.

Hoje em dia eu vejo meus amigos próximos já com filhos, com idades pequenas ainda. Espero que eles tenham coragem de questionar bastante o método educacional que estão sendo colocados de bandeja para eles, pois uma coisa é certa: nada vai mudar, enquanto houver gente que não tem capacidade de ser pai/mãe tendo filhos por ter, ou achando que seu filho estará sempre com razão e não analisar friamente determinadas posturas como erradas ou certas. E, claro, as instituições educacionais tem que se colocar mais presentes com presença de autoridade suficiente para perceber e coibir esse tipo de atitude o quanto antes.

Neste último parágrafo aproveito pra falar da história que meu amigo Claudio Hammer falou sobre a questão do filho dele, que estava sendo agredido no colégio. Depois de conversar com o filho sobre o que estava acontecendo, os grandinhos da turma (do filho dele) não cessaram com as agressões. Exigindo uma postura institucional, foi até o colégio mencionar o que estava acontecendo, e as professoras demonstraram não conhecer do problema, dizendo que estava tudo normal. Na reunião de pais, acabou que as mães não reconheciam também o problema, e que seus filhos “jamais” fariam isso. Esse diálogo, segundo Claudio, se repetiu por duas vezes. Na terceira, orientou o filho da seguinte forma “na próxima vez que forem pra cima, pode ir pra porrada. Apanha, mas bate. E bate pra valer”. De fato, não seria o melhor conselho em um aspecto social, mas em um plano antropológico é bem mais direto. Mas ao meu ver, dentro da história contada, o naturalismo teve que se impor em detrimento da instituição falida da escola, que fica vendida pela presença do aluno que paga a mensalidade. E, novamente, a desproporção apareceu: O filho de Cláudio foi recriminado pela postura, pois “haveria meios pacíficos de resolver o problema”. Claudio foi pontual “eu tentei os meios pacíficos duas vezes, mas ao que eu saiba, vocês não fizeram nada”. Os outros capítulos da novela eu não sei, mas outro dia desses ele me conta.

Agora dá licença, vo falar da família real, porque eu também tenho meus posts fúteis.

Dumb Privacy Issues - Children Version

Outro dia, passeando nos comentários aleatórios do meu querido Facebook, deparei-me com uma solicitação aberta e inusitada. Uma mãe nova, aparentemente, pedia aos colegas que se caso seu grupo de colegas observassem que as fotos dos filhos dela estivessem sendo utilizadas indevidamente, para denunciá-las a ela, para que fossem tomadas as devidas providências.

Eu juro que comecei a dar risada. E meu nervosismo não é para tanto, até porque existe uma incoerência muito grande na solicitação. Sabemos que as redes sociais revolucionaram a maneira de todos se relacionarem num ambiente comum, e acima de tudo, que o compartilhamento de informações pessoais dentro desses universos depende 1) do seu ingresso nele e 2) da disposição dessas informações por parte do usuário, para todo mundo ver.

Olha, mal comparando, se eu colocar uma foto minha em um Mural público onde todos os meus amigos e/ou qualquer pessoa possa ver, é óbvio que pode-se esperar algum tipo de vandalização ou exploração dos links, pois é isso que a rede social serve: Para compartilhar. E infelizmente o mundo não é feito de rosas: Tem gente que rouba fotos, música, videos e coisas piores. E atualmente até mesmo coisas simples como o direito a imagem acaba sendo um problema. Englobamos exemplos clássicos como o Jedi Kid e aquelas montagens dos garotos bochechudos ou o garoto sorrindo com aparelhos, a qual me falham a memória os links agora.

Sempre aprendi, quando entrei na internet, que se você não quer algo exposto na internet, o ideal seria não deixá-lo sequer disponível no seu HD. Ora, numa rede social, uma vez postado, não dá pra garantir que seu melhor amigo não vá utilizar sua imagem contra você, até porque você não vai ter nem certeza que o acesso dele é dele mesmo (ex: a conta dele pode ser hackeada né), e a partir daí, você passa a ser apenas um colateral na equação.

Privacidade é um problema no mundo de hoje. Todavia só se expõe quem quer. Eu acho muito legal ver pais e mães mostrarem a foto dos filhos para os amigos, mas mesmo isso tem que conhecer um limite, não por um alerta em relação aos pais, mas é uma proteção contra o excesso de exposição dos filhos também. Se fosse comigo, isso é o que eu faria: Fecharia meu facebook só para os amigos de verdade, limitaria a exposição de tudo para FRIENDS ONLY, e as fotos mais pessoais deixaria em um link privativo com senha. Em um aspecto amplo, nada disso impediria a exploração das imagens se caíssem em mãos erradas, mas mesmo assim criar critérios restritivos nunca fez mal. É o que eu acho.

Queria saber o que a Svilpa, o Xela e o Rods teriam a dizer disso. Vamos ver.

Meus Podcasts
Então tá. Você quer ser Piloto né.


No meu canal do Youtube recebo várias mensagens. Desde aviadores antigos e entusiastas das aeronaves que eu já voei um dia (Boeing 727 e o Douglas DC-10-30), bem como os fanáticos psicóticos pela aviação contemporânea. Já recebi várias mensagens pedindo o que tem que fazer para ser piloto, como é que é, o que tem que fazer, etc. Ah sim, eu também recebo convites de alguns malucos que acham que são pilotos só pelo fato de fazer aquele pousaço no Flight Simulator cheio de addons que deixam até um i7 com 12gb de RAM engasgando nos gráficos. Mas esses eu infelizmente escolho ignorar porque realmente eles transformam um hobby em algo mais voltado a obcessão de psicopatas.

Olha, não é questão de má vontade, acreditem. Responder a dúvida de um por um é extremamente cansativo e me consumiria um tempo que eu não tenho, então resolvi fazer uma série de posts falando exatamente do caminho para ser um aviador de verdade. Mas pra variar, mantendo o estilo e a fidelidade nos detalhes, não irei falar meramente do processo prático, mas algo principiológico deve ser falado, como condições, pré requisitos e afins. Vamos juntos ok? Com paciência.

Ah sim, depois vou botar uma área de comentários no site também… Mas se der muito spam, vou tirar. E aí crio um email para comentários se for o caso.


[Pré Requisitos para ser Piloto]

[Saúde]

Você não precisa de uma saúde sobre humana, porém…. - Para ser piloto, não é necessário de fato ser um soldado paramilitar com visão de águia, corpo sarado e estar pronto para carregar sacos de pedra no vietnam. O que você não pode ter é determinadas doenças ou condições médicas que podem ser impeditivos para você realizar sua profissão. Embora não seja uma regra, o ideal seria você procurar seu médico, e explicar que você gostaria de ser Piloto e que tipo de exame você poderia fazer para ser aprovado num exame médico aeronáutico (chamado CEMAL, depois eu falo dele). Falo isso porque, se você se der ao trabalho de começar a investir no seu treinamento e depois você descobre que você tem uma condição incapacitante permaente, você vai perder tempo e como diria uma frase que eu ouvi recentemente “Criar expectativas é chamar a frustração para passear”. Logo, o ideal é você ir na página da ANAC, baixar o RBCA 67/RBHA 67, e conhecer muito bem a norma que fala sobre a condição física do aeronauta. Um acompanhamento psicológico também se faz necessário até porque as pressões da profissão eventualmente acabam pegando você e caso você não seja uma pessoa extremamente centrada, você vai pirar na profissão, e isso nunca é legal.

[Família]

Ter família na profissão de piloto é algo difícil de administrar. Ainda mais nos dias de hoje, que a aviação se tornou uma profissão dinâmica e com instabilidades constantes através de atrasos, alterações climáticas e alterações corporativas constantes, que resultam nas alterações das escalas de vôos de todas as empresas aéreas. Quem quer abraçar a carreira de piloto deverá estar pronto para abandonar sua casa para buscar novos horizontes (Foi mal o clichê, mas foi o melhor que eu consegui para ilustrar) e terá que ser uma pessoa extremamente adaptável em qualquer situação, boa ou ruim. Nem sempre você poderá fazer suas horas de vôo num aeroporto com boa infraestrutura como Jacarepaguá (RJ, no meu caso), e as vezes você vai ter que se contentar com vôos que te levam para os lugares mais improváveis desse país pela qual você só conhece através dos programinhas do Mauricio Kubrusli (sei lá o nome dele). Não obstante, o desapego pela casa é algo que eventualmente vai acontecer, e você tem que saber que ficar 1 semana fora de casa, ou até mais que isso, vai ser algo comum no seu cotidiano. Mas é o tal, no meu caso, eu penso da seguinte maneira: Você iria aturar 1 semana indo pro mesmo escritório, vendo as mesmas pessoas e ouvindo as mesmas piadas todo o dia? Pois é.

[Relacionamento]

Outro aspecto difícil dentro da profissão é manter um relacionamento afetivo. Não vou querer ser machista neste caso, mas vou focar mais o aspecto do homem aeronauta mesmo do que a mulher aeronauta. É comum realmente obter muitos relacionamentos entre pilotos e comissárias, mas não quer dizer que isso seja algo inevitável. Há mulheres terráqueas (algumas, normalmente exceções) que suportam uma profissão onde o homem da família ficam a distância, e isso implica necessariamente num acúmulo de responsabilidades que chega a ser difícil de administrar algumas vezes. Meu entendimento sobre o tema é um pouco mais radical, mas não pretendo me expressar aqui sobre isso porque, justamente, o texto visa ser impessoal nesse aspecto. Um comparativo que posso traçar nesse aspecto é a questão dos médicos e enfermeiras, típico cliché do Plantão Médico. Acontece muito na aviação também mas mesmo sendo um padrão, está longe de ser a Regra. De qualquer maneira, os aspectos emocionais de um relacionamento vivem em constante avaliação quando você é um piloto, pois enquanto você estiver fora, você tem que confiar na pessoa que supostamente estará com você. E isso as vezes é muito difícil de encarar para alguns, e para outros acaba sendo algo mais normal e pleno. O importante é saber que turbulências podem acontecer, e saber escolher a pessoa certa para estar ao seu lado acaba sendo providencial.

[Comportamento]

Normalmente o perfil do piloto gira em torno de pessoas que são metódicas, organizadas, e acima de tudo padronizadas. De novo, insisto em uma tendência, não uma regra. Tem gente que é completamente desorganizada em casa e dentro da profissão exerce seu dom com maestria, e não podemos descartar essas situações. De qualquer maneira, o importante é saber que dentro da profissão da aviação você não está pilotando só pra você, você vai pilotar para mais gente, passageiros ou executivos. E isso tem que estar na sua cabeça constantemente.

Aqui nesse ponto posso compartilhar uma experiência quando fui instrutor. Certa vez fui dar instrução para um aluno no aeroclube ainda, onde ao exigir um pouco mais dele, ele pediu para parar o vôo alegando “dor de barriga”. Okay, pode acontecer. Mas isso me deixou inquieto, e resolvi investigar a ficha dele. Depois 80 horas de vôo ele ainda não havia feito seu primeiro vôo solo (a média para fazer o vôo solo é de 40 a 50 horas de vôo), e aí resolvi buscar a fundo o que estava acontecendo. O garoto vivia o sonho de piloto através do Pai, e apesar de gostar de voar e mesmo tendo talento para a coisa, ele não suportava 1/1000 de pressão ou exigência. Ao perguntar perguntas simples sobre conhecimentos típicos de aviação, pouco sabia me responder. Comportamentos descompromissados na aviação não servem porque na mente deste aluno, o avião nunca iria dar pane, e ele sempre estaria em controle da situação, não importa como. Isso se chama consciência de invulnerabilidade, síndrome de super homem, e o aviador pode ser qualquer coisa menos isso. O aviador tem que conjugar os termos segurança e conservatividade em consonância com os princípios de segurança de vôo e tem que ter a consciência que ele estuda a aeronave dele e o universo dele para a segurança de sua operação. No final das contas, o Piloto estuda em prol da própria vida.

[Recursos e Curriculum]

Hoje, 2011, a profissão está incandecente praticamente. As empresas estão procurando profissionais da aviação onde quer que eles estejam, e contratando aos tubos. A briga salarial e de promoção para comandantes está alta, mas é bom lembrar que nem sempre vai ficar assim. De qualquer maneira, o importante é saber o que você precisa ter para ser um piloto com um CV louvável:

a) Horas de vôo: A grade curricular da aviação eu vou falar depois, mas hora de vôo fazem o Curriculum do Piloto. Não é o único diferencial, mas é o principal. Quem tem 500 horas de vôo devidamente registradas está melhor que um garoto que acabou de fazer seu vôo de avaliação (Chamado vôo de check) de PC com 300 horas. Mas, como eu falei, esse critério não é absoluto. Basta dizer que se o piloto que tem 500 horas for chamado para voar uma aeronave Cirrus para um executivo e não souber inglês, e o garoto que tiver 300 horas souber, ele pode ser preterido, pois, como vou falar em breve, não ter inglês é algo INACEITÁVEL.

b) Língua Inglesa: Nesse ponto eu não vou me dar ao luxo de ser tolerante. Piloto que não sabe inglês está fadado a se manter na mediocridade da aviação nacional. Se você sonha em ser piloto de linha aérea ou piloto executivo de rotas internacionais, seu investimento em língua inglesa deverá ser massivo. Hoje, com os requisitos da ICAO para mínimos de língua inglesa, muitos comandantes de linha aérea estão voltando a voar nas linhas domésticas porque não conseguem tirar o nível mínimo de inglês. Mas aí temos que ser ponderados pois a formação desses hoje comandantes tiveram preceitos diferentes em suas épocas. Hoje em dia, não dá pra ser mais tolerante com esse vacilo. Não existe manual de avião de linha em português. Inglês técnico não é mais suficiente: Você tem que saber falar, ler e interpretar a língua inglesa para poder ter esse “plus”. E vou te dizer, o diferencial desse item abre MUITAS portas.

Aqui vai outra história interessante: Meu pai, enquanto aviador, sempre lutou para estudar inglês e se manter nas rotas interancionais da VARIG. Sempre teve dificuldade, mas sempre se esforçou muito e manteve seu mínimo aceitável (na época dele não existia mínimo de Nível de proficiência para voar pro Exterior), e conseguiu conhecer o mundo inteiro com isso. Hoje, se fosse a mesma situação, ele não conseguiria continuar, pois dentro da limitação dele jamais passaria, talvez, numa prova da ICAO, pois o nível de proficiência exigido hoje em dia é intenso e massivo. Na minha época de aeroclube, havia algumas AFA’s (boatos, fofocas, a.k.a Associação de Fofoqueiros Aeronautas) dizendo que “seria obrigatório ter língua inglesa para voar depois de 2010 de acordo com a ICAO”. Vários colegas davam risada, ficavam com esse argumento “rapaz, eu nunca estudei pra voar, você acha que eu vou estudar para falar inglês?!”. E olhe só, veja você, não é que aconteceu mesmo? Esses mesmos colegas que não estudavam inglês hoje estão fadados a se manter voando no Brasil e vão perder inúmeras vagas em empregos da Executiva porque justamente não tem língua inglesa. Logo, um pricípio na aviação que acaba sendo verdade em todos os níveis: Saiba sempre se antecipar, e andar na frente da máquina. Senão a máquina te engole. Simples assim.

c) Cursos Extensivos e Faculdade: É necessário fazer uma faculdade de ciências aeronáuticas? Não. Não é. Obviamente, o curso de ciências aeronáuticas amortizam a necessidade de horas para você disputar uma vaga, por exemplo, nas linhas aéreas Brasileiras. Mas o que eu recomendaria nesse caso é você fazer, de fato, uma faculdade sim, mas que seja em um ramo diferente da aviação. Isso é algo que hoje 99,9% dos aviadores ignoram, mas nós temos uma grande vulnerabilidade em nossa profissão, que é a flutuação do preço do petróleo. Se o preço do Petróleo dispara, o efeito cascata é grande e resulta em demissão dos aviadores e redução de vôos em todos os níveis. E é nessa hora que o Piloto precisa saber e aprender a ter um Plano B. Uma faculdade qualquer em um outro ramo que você adote sempre será um Curriculum adicional e com certeza o nível superior que você elegeu lhe dará uma vantagem nos momentos mais adversos, pois você não ficará escravo do vôo somente, você poderá tentar um concurso, ou um emprego em outra área, se for necessário. Nesse sentido, vale muito colocarmos a frase aqui: “Um piloto tem que ter sempre uma (pista/aeródromo de) alternativa”.

[Valores do Curso e das Horas]

A grade curricular de um curso de piloto, simplificado, é assim:

(Nota: Piloto de Helicóptero é diferente e não é englobado nessas dicas)

PP -> PC (IFR/Multi) -> PLA. É uma escadinha de níveis. Cada um desses pontos implica em um curso teórico e um tipo de exame médico específico. Traduzindo basicamente é o seguinte:

PP: Carteira de Piloto Privado: É a carteira de piloto pela qual você não pode celebrar contrato de trabalho, mas esta habilitação permitirá que você faça vôos por conta, caso você tenha uma aeronave particular ou então queira voar a aviação desportiva. É a primeira habilitação que você terá em sua carreira e será a porta de saída para a segunda habilitação que você irá pegar, que é a de PC - Piloto Comercial. Os requisitos mínimos, se não me engano (nota, eu não tenho certeza, tem que ver no RBCA/RBHA respectivo no site da ANAC), são 50 a 70 horas de vôo.

PC: Piloto Comercial: É a carteira de piloto que, após ter o Piloto Privado devidamente checado, poderá exercer função a bordo de aeronave, com contrato de trabalho, e remunerado. O Piloto Comercial tem umas habilitações agregadas que você pode tirar ou não (IFR, que engloba o vôo por instrumentos, e o Multi, chaamdo Multimotor, para aeronaves com 2 motores ou mais). É nessa fase que você vai passar pelo menos 40% da sua carreira trabalhando como co-piloto, esperando acumular experiência para comandante. Mas para ser comandante de aeronaves de linha aérea, aí você vai precisar de um item adicional, que é o PLA.

PLA: Piloto de Linha Aérea: Para ser PLA, os mínimos estão estabelecidos no RBCA/RBHA 61. Deverá ter mínimo de 3000 horas de comando de aeronave, dentre outras coisas. Tem uma prova teórica também, mas não chega a ser um desafio absurdo. É algo que você pode investir depois que você estiver trabalhando, mas quando estiver nessa fase, o importante é tê-lo o quanto antes, pelo menos a prova teórica. Esse ponto eu explico com detalhes outro dia desses.

Curso teórico: Você pode escolher uma escola de aviação na sua cidade ou na cidade onde tiver. A média de mensalidade gira em torno de R$600,00/mês, durante uns 4 meses, até conseguir o dipliminha da instituição. O curso já foi obrigatório uma época, e hoje em dia não é mais. Mesmo assim, eu recomendo fazer o curso porque tem aspectos das matérias de aviação que simplesmente NENHUM LIVRO de aviação brasileira explica corretamente. Minhas críticas a esse ponto também vão para outro texto.

Para o PP e o PC, o custo médio da hora de vôo gira em torno de R$250,00, com variação de 35% para acima desse valor. A fim de chegar até o PC Monomotor (sem IFR, sem Multi), você vai gastar em torno de 175 horas mínimas (pode ser que você tenha que fazer mais que isso), portanto, faça os cálculos e chegue a esse valor.

Ah é. Esqueci do exame médico. Eu comecei falando de Saúde e obviamente, um exame de saúde no órgão de saúde do comando da aeronáutica gira em torno de R$370,00 para um exame inicial, e R$190,00 para revalidação (esse documento se chama CCF). Isso obviamente o piloto paga até conseguir um emprego na linha aérea (depois é a empresa que reembolsa o CCF), mas até lá, é por sua conta. Feliz ou infelizmente, é a grande realidade.

Em breve criarei um email para dúvidas, mas até lá, você pode utilizar esse endereço aqui para contato: falecomoroque@me.com